Os desafios enfrentados por imigrantes após obter o green card

Integração cultural, acesso ao mercado de trabalho e educação estão entre as principais preocupações de brasileiros que vão morar nos EUA

O “sonho americano” continua atraindo milhares de brasileiros, mas, para vivê-lo, é necessário obter o green card — documento de residência permanente no país, permitindo trabalhar e morar legalmente em território americano. Segundo dados do escritório de advocacia imigratória AG Immigration, em 2023, 28.050 brasileiros receberam a residência permanente nos EUA. Além disso, no mesmo ano, foram registradas 12.570 naturalizações de cidadãos do Brasil, colocando o país na 16ª posição entre os que mais receberam esse benefício.

No entanto, a conquista do green card é apenas o primeiro passo. Após a obtenção do documento, os imigrantes enfrentam uma série de desafios, como matricular os filhos em escolas, ter acesso a serviços de saúde, conseguir emprego, adaptar-se culturalmente, tirar a carteira de motorista, entre outros. Pensando nisso, a Viva América listou os principais obstáculos enfrentados por brasileiros que buscam se estabelecer nos Estados Unidos.

Integração cultural e social

A integração cultural e social é um desafio significativo para muitos imigrantes nos Estados Unidos. Se adaptar à nova cultura, idioma e normas sociais pode ser uma experiência difícil. De acordo com o Migration Policy Institute (MPI), em 2019, 43% dos brasileiros que vivem na “Terra do tio Sam” possuem problemas com o idioma americano. A dificuldade em se comunicar pode impactar diversas áreas da vida, incluindo acesso a serviços de saúde, educação e oportunidades de emprego. Superar essas barreiras é crucial para a integração dos imigrantes na sociedade americana e para que possam contribuir de maneira significativa. 

Acesso ao mercado de trabalho

Muitos imigrantes possuem formação profissional e experiência em seus países de origem, mas enfrentam dificuldades para validar essas qualificações nos EUA. No entanto, o país está em busca de profissionais altamente qualificados. Esse avanço demonstra a maior presença do Brasil no mercado de trabalho acadêmico norte-americano.No campo profissional, entre 2021 e 2023, mais de 3,5 mil brasileiros foram contratados por empresas nos EUA por meio do visto EB-3, com destaque para os graduados em áreas como Administração, Engenharia Elétrica, Ciência da Computação e Direito. Aproximadamente 32,8% desses contratados possuíam ensino superior, mostrando a alta demanda por profissionais qualificados.

No entanto, atualmente (janeiro de 2025) existem mais vagas abertas nas empresas do que pessoas desempregadas nos EUA, o que indica a necessidade de mão de obra em todos os setores da economia, incluindo construção, saúde, comércio e transportes.

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Acesso a seguro médico

Após obter o green card, muitos imigrantes passam a ter acesso aos benefícios de saúde nos Estados Unidos, mas ainda enfrentam desafios relacionados ao seguro médico. De acordo com o Kaiser Family Foundation (KFF), cerca de 45% dos imigrantes sem cidadania não possuem seguro de saúde, enquanto esse número é significativamente menor entre os cidadãos americanos, com apenas 9% sem cobertura. 

O alto custo do seguro médico nos EUA continua sendo um obstáculo significativo para muitos imigrantes, refletindo as desigualdades no sistema de saúde americano. Ainda que após a obtenção do green card, os imigrantes possam se beneficiar de planos de saúde mais acessíveis, a adesão a esses seguros ainda depende de fatores como renda e conhecimento sobre os recursos disponíveis.

Educação

Embora o acesso à educação pública seja garantido para crianças e jovens imigrantes, adultos e famílias enfrentam obstáculos como a validação de diplomas estrangeiros, barreiras linguísticas, custos elevados de ensino superior e dificuldades para navegar no sistema educacional americano. 

Além disso, imigrantes que desejam retomar ou continuar seus estudos muitas vezes encontram desafios para conciliar trabalho, família e educação. Segundo o Migration Policy Institute (MPI), cerca de 30% dos imigrantes adultos nos EUA têm formação superior, mas muitos não conseguem aproveitar suas qualificações devido à falta de reconhecimento de diplomas ou à necessidade de reciclagem profissional. Programas de educação para adultos, como aulas de inglês (ESL) e treinamentos vocacionais, são essenciais para ajudar imigrantes a superar essas barreiras e alcançar a mobilidade socioeconômica.

Compra e venda de imóveis

A decisão entre comprar ou alugar um imóvel nos EUA após obter o Green Card envolve uma série de fatores que vão além da simples disponibilidade financeira. É essencial considerar não apenas as reservas econômicas já planejadas para a transição, mas também a clareza sobre o local onde a família pretende se estabelecer. Para aqueles que têm certeza da compra, é possível iniciar o processo ainda no Brasil, o que pode garantir melhores condições e evitar gastos com aluguéis temporários.

No entanto, outro ponto crucial é a escolha estratégica da localização, especialmente para profissionais de áreas específicas, como engenharia e tecnologia. Optar por uma cidade com um mercado de trabalho sólido na sua área de atuação pode evitar mudanças futuras desnecessárias e proporcionar uma adaptação mais estável. Para facilitar essa transação, é recomendável contratar um corretor de imóveis que fale o mesmo idioma e tenha experiência em trabalhar com imigrantes. Na dúvida, peça referências para mais de uma pessoa.

Tirar a carteira de motorista

A famosa driver’s license (carteira de motorista) também é uma preocupação para os imigrantes. O processo varia de acordo com o estado e pode incluir testes escritos e práticos. Para se preparar, é essencial estudar o manual do motorista do seu estado, disponível online ou em agências do DMV (Department of Motor Vehicles), equivalente ao Detran no Brasil. Fazer aulas de direção pode ser útil para se familiarizar com as regras de trânsito locais. Agendar os testes com antecedência e levar todos os documentos necessários, como comprovante de residência e Green Card, também são passos importantes para obter a carteira de motorista.

O escritório de advocacia imigratória AG Immigration listou algumas dicas para quem deseja tirar a carteira de motorista nos EUA. Por exemplo: reserve até US$ 1 mil para todo o processo, lembrando que o valor pode ser menor. Além disso, muitos estados permitem a primeira habilitação já aos 16 anos de idade, como é o caso de Nova York.

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Reconhecimento de diplomas e certificações estrangeiras

Diplomas obtidos no exterior nem sempre são reconhecidos nos EUA, o que pode limitar as oportunidades de trabalho em determinadas áreas. Para superar essa barreira, é importante verificar se sua profissão exige a revalidação do diploma ou certificação. Algumas áreas, como medicina e direito, têm requisitos específicos. Entrar em contato com instituições de ensino ou órgãos reguladores pode ajudar a entender o processo de equivalência. Em alguns casos, fazer cursos complementares ou de especialização nos EUA pode ser uma maneira eficaz de adaptar sua formação ao mercado local.

Discriminação e preconceito

O preconceito e a discriminação são desafios que muitos recém-chegados podem enfrentar, frequentemente relacionados à origem, ao sotaque ou à aparência. Um relatório do Pew Research Center (2021) revelou que cerca de 30% dos residentes estrangeiros nos EUA relataram ter passado por alguma forma de discriminação, seja no ambiente de trabalho, em espaços públicos ou em interações do dia a dia. Esse tipo de tratamento pode impactar não apenas a autoestima, mas também a adaptação e a integração social.

Para lidar com esse tipo de situação, existem iniciativas como o Immigrant Heritage Month (Mês da Herança Imigrante), celebrado em junho, que busca comemorar as contribuições dos imigrantes para a sociedade americana e conscientizar a população sobre os desafios que eles enfrentam.

Impacto emocional e psicológico 

Muitos imigrantes enfrentam o chamado “choque cultural”, que pode gerar sentimentos de solidão, ansiedade e até depressão. Para lidar com esses desafios, é essencial buscar apoio psicológico, especialmente em comunidades que oferecem serviços de saúde mental voltados para imigrantes, muitas vezes com atendimento no idioma nativo. 

Além disso, é recomendado buscar se conectar com outras pessoas por meio de grupos comunitários e associações de imigrantes para ajudar a construir uma rede de apoio, reduzindo o isolamento. Manter vínculos com a cultura de origem também é fundamental, seja celebrando tradições, cozinhando pratos típicos ou mantendo contato com familiares, o que contribui para preservar a identidade cultural e tornar a adaptação mais equilibrada.

Foto: Freepik

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